sexta-feira, maio 18, 2007

Monsieur-je-sais-tout (short story)



As festas serão um ponto de convergência dos que buscam divertir-se das mais variadas maneiras concebíveis. Ou então, uma fuga à solidão. Ou de si próprios.
Há muito que recusava convites para festas. Deprimiam-no, as festas. Incomodava-o a vozearia, o fumo do tabaco, a música que não escolhera, tonitruantemente desajustada aos seus ouvidos, o passar das horas e o embalo dos convivas em crescendo de desinibição propiciado pelo álcool e pelo envolvimento.
Ser abstémio era salutar, mas mau para as festas. Não fumar, desequilibrava-lhe a gestualidade. Todos tinham um copo na mão e um cigarro na outra. Ele não tinha copo nem cigarro. Apenas as mãos vazias das quais não ajeitava que fazer. Tornavam-se extremidades inúteis e desenquadradas. Acaba por escondê-las nos bolsos e deambulava com um sorriso circunstante e fixo por entre os corpos que ondeavam e aspergiam o ar com o perfume das suas mensagens.
Aceitara ir à festa por estar demais cansado de si e da sua crescente solidão. Fora para se atordoar. Sensitivamente. Pela vista, pelo odor, pelo tacto, pela audição… nada disso, porém, estava a acontecer. Pelo contrário, sentia-se cada vez mais deslocado. E mais só. E tão mais só quanto a sua lucidez contrastava com a inquieta agitação da tribo.
Nalgumas ilhas falava-se do último livro de Z, da exposição de Y, da separação de X… e de alfa a ómega, ouviam-se tontarias pouco originais, clichés de serapilheira, ruminados depois de lidos algures.
Os olhos da fauna luziam, o som crescia de volume, os corpos mais se meneavam nos rituais de chamamento.
Saiu ao jardim bem tratado que rodeava a casa. A noite de início de Verão estava serena. As cigarras cantavam, alheias, aos sons de dentro, mais ténues, mais distantes. As máquinas da piscina trauteavam o seu ronronar monótono. A luz, difundida por pequenos focos, criava halos intermitentes na escuridão amena.
Apercebeu-se de um vulto, de costas para si, olhando para a cidade distante, debruçada num varandim metálico. Ia a debandar quando ela se voltou e lhe sorriu, Boa noite, professor. Como está, respondeu automaticamente esforçando-se por reconhecer aquele rosto, decerto de uma aluna sua, actual ou de outrora e semelhante a milhares de outros que os anos haviam feito desfilar à sua frente. Não me reconhece, pois não? Claro que sim, desculpe. É noite e já não vejo muito bem. Além de que venho de dentro… Sou a Matilde, sua aluna de literaturas românicas. Claro que é. Como está? Apercebeu-se que já lhe tinha perguntado isto e que já havia começado outra frase por “claro que”.
Era um purista da linguagem e esforçava-se naturalmente por obviar a deslizes daqueles e por os corrigir aos outros.
Além disso, se a cara e o nome não lhe eram de todo estranhos, não tinha a certeza de os situar onde quer que fosse. Não está a apreciar a festa? Nem por isso, o fumo incomoda-me. Também a mim. O barulho incomoda-me. Também a mim. Interessante, o fumo e o barulho são duas fobias comuns. Teremos outras? Ou melhor, pondo de parte as fobias, que são sempre um medo mórbido, teremos, em comum, filias? Perdão, filias, que quer dizer, professor? Não teve grego? Claro que não, disparate! Quer dizer amor, afeição, simpatia. De certo modo, o antónimo de fobia, percebe? Sim, percebo. Aliás, fez que eu percebesse. O que nem sempre aconteceu. Como assim? Muitas vezes, no decurso das aulas do professor, não conseguia acompanhar o seu raciocínio. Aquilo que para si era óbvio e transparente, para mim não passava de obtuso e completamente opaco. Culpa de…? Claro que a culpa, se de culpa podemos falar, seria sempre minha. Mas falar aqui de culpa… Francamente, professor… Tem razão. Como disse, se é que disse, que se chamava? Gosto de nominalizar, que é uma espécie formal de avocar para perto de nós… Matilde, professor. Sou a Matilde. Por que me quer avocar para junto de si, se foi isso que entendi das suas palavras? Bom, nem sempre podemos levar as palavras muito a sério, Matilde. São perigosíssimas, as palavras, em certos contextos, se levadas muito a sério… Está a fugir ao que disse e a evitar a resposta, professor. Porque me quer, se quer, junto de si? Quer que lhe responda? Claro, senão não perguntaria duas vezes! É noite. A noite é cúmplice de afectos. Estou só. Está só. Fugimos, ou melhor, arredámo-nos das fobias comuns. Estamos aqui, quase numa comunhão, essa tão especiosa forma de partilha. Sente-a? Sinto. E daí? Daí, que para o meu mais de meio século, nesta exacta situação, a Matilde é uma graça que os deuses, decerto por distracção, trouxeram para junto de mim. O professor é que veio para junto de mim. Eu já cá estava. Lembra-se? Sim, tem razão. Foi uma atracção fugaz na calidez da noite. É a luz. Eu sou a borboleta. Agrada-me ser luz, professor. Ser a sua luz. Para variar do ponto de irradiação da luminescência, essa verbalização deixa-me quase a suar. A suar? Eu disse, quase a suar! Já reparou, professor, quantas vezes o corrigi? O que não deixa de ser interessante, como variável da rotina. Sabe como o chamam? Como me chamam? Sim. Nick name, nom de guerre, alcunha… o que quiser. Nem sabia que tinha alcunha… Monsieur-je-sais-tout. Agrada-lhe? Hum… acho pedante, eufemístico, hiperbólico… Ok, chame-lhe de nomes. É boa defesa, mas não passa de cosmética banal. Gostou, repito? Não, não gostei. Sois umas miúdas atrevidas, arrogantes e traiçoeiras. Eia, não gostou, não gostou mesmo. E qual traição? Em que o traímos? O prof é que se trai muito com os seus tiques magistrais. O verniz do saber… estalado! Ouça lá, Matilde, ou o que quer que se chame, não acha que está muito embalada para a confiança que temos, que eu lhe dei? Sim, estou embalada, mas embalada de jogar, de dançar. Sabe dançar, professor? Claro que sei, mas se não estudou latim nem grego, como sabe o étimo das palavras? O étimo é a verdade, professor? O que é a verdade? A verdade, eh… é a, é o conforme ao real… a adequação do pensamento, da expressão do pensamento… Por favor… cale-se um instante, professor! A verdade, somos nós os dois. Aqui. Agora. A verdade é a atracção que sente, agora, por mim. A verdade é a influência, o afluir do desejo. Não é, professor? Disparate, Matilde. Não a conheço. Talvez a conheça. Mal a conheço… Em que ficamos, professor? Eu conheço a Matilde, ele conhece a Matilde… conhecer é apreender. Já me apreendeu, professor? Basta! Eu sou seu professor, não se esqueça! Além disso, tenho mais trinta anos que a Matilde. E não sou leviano. Sou um ser humano sério. Respeitável. Ouviu? Percebeu? Mas não precisa de se precipitar, nem ser imprudente, professor. E está tão sisudo. Quer que o venere? Que o reverencie? Como a Vénus, aos santos e aos anjos? O prof é um santo ou um anjo? Gostava-o demónio… Matilde, pare! Cale-se! Ouça-me! A conversa, esta conversa, está a ir longe de mais… Onde é o longe de mais, professor? Lembra-se de uma aula em que nos falou de Bloom, não me lembro da obra, recordo que eram reflexões sobre o caminho e que acabava mais ou menos assim: “Na história diz-se apenas que é preciso chegar ao lugar. Depois de cavalgar três dias e três noites chegou ao lugar, mas decidiu que não era sítio onde se pudesse chegar.” O longe de mais é isso, professor, o sítio onde se não pode chegar? “A Angústia da Influência”! A angústia de quê? Nada, não interessa. É o nome da obra que acabou de citar. Fala de poemas. Fala de angústia, de encobrimento, de… Ok! A perversidade disciplinada, professor. Mas sim, claro, é uma frase do livro… Que nota obteve à minha cadeira? Professor, professor… Não me desiluda… uma cabeça tão brilhante, uma capacidade tão notável e não consegue lembrar-se da nota que deu à Matilde? Francamente… Peço-lhe desculpa. Sabe, sois tantas… Aquela faculdade está cheia de Matildes. Todos os anos as Matildes estão lá sentadas, bovinamente, a fazer que me ouvem… quanto lhe dei, afinal? Reprovou-me, caro monsieur-je-sais-tout! R-e-r-o-v-o-u-m-e! Estou a repetir literatura e ainda assim sou nada? Bovinamente, professor? Somos uma manada de vacas no prado, toda aquela esplendorosa juventude, são absurdas vacas? Perdão! Peço perdão! Não quis dizer nada disso. O bovino, obviamente, era figurado. Tinha a ver com a vossa costumeira submissão, a vossa mansidão. Claro que mansidão no sentido de anuência, de aquiescência, de aceitação, de conformismo… Ora cale-se lá um pouco e deixe as palavras sossegarem! Porque se esconde nas palavras, professor? Nos textos dos outros? Nas imagens? Nas figuras? Como é nu, professor? Nu, Matilde? Disparate! Sou velho e a decrepitude já me assolou. Ao pé do seu corpo seria noite e o dia, o sol e a lua, a geada e a seca. Sou noite, lua e seca, Matilde. A Matilde é dia, sol, geada. Professor! Acorde! Nu de palavras. Sem adornos. Desguarnecido… Estava a fazer poesia, professor? Meia rasca, convenhamos. E pouco original, concordemos. É o seu melhor, professor? Os seus livros, a sua poesia, escrita, é bem melhor. Quase dá orgasmos de prazer. Ao vivo deixa-me murcha. Uma mulher fica murcha, professor? Sim, Matilde, se perder a frescura, o viço, o vigor. Coisas que não lhe faltam, por ora. Ná, ná… murcha, de flácida, percebe, professor? Murcha-mole. Uma mulher fica murcha-mole, professor? Não sei a que se refere. Não vá por aí! São caminhos ínvios… Mas, professor, isso é um disparate, um non-sense. Ainda há dias, numa aula, referia que ínvio é o que não proporciona caminho, que não permite acesso, passagem, que é inviolável… então explique-me aqui o que é um caminho ínvio… Dizia mais, vou lembrá-lo, que o não ir por aí é transgredir, sair da fila, Kundera, recorda? Que a transgressão é uma fuga/recusa da norma. Que a fuga da norma é um desvio. Que devemos todos violar a norma. Que a criação advém, também, da violação da norma. Lembra-se que quando afirmou isto a uma turma de quarenta e tal raparigas, houve uma gargalhada geral, porque uma de nós é Norma de nome, a mais feia de todas, coitada. Aquela que ninguém ousaria violar. Além disso, professor, pense um pouco, como iríamos nós violar a Norma? Como a estupraríamos nós? Que somos murchas-moles? Matilde, por favor, modere-se! E ainda para mais, ordena: “Não vá por aí!” Mas o Régio também não foi por aí… Matilde, porque é que eu a reprovei? Há coisas em si que me espantam…! Coisas, professor? Que coisas? As minhas pernas? As minhas coxas? As minhas mamas? Os meus lábios? Os meus olhos? O meu cabelo? A que coisas se refere? E ainda só viu o observável por todos. Já pensou nas outras coisas que eu tenho e quase ninguém vê? Ninguém ouve? Os meus gemidos, por exemplo. Os meus orgasmos. A minha humidade… Matilde! Matilde! Cale-se, ordeno-lhe! Porquê, professor? Estou a excitá-lo? A transtorná-lo? A pô-lo fora de si? Pô-lo fora de si, agrada-me. O sexo masculino quando se ergue, erecto, sai para fora do homem, professor? Ainda tem erecções, professor? Matilde, ordeno-lhe, cale-se! Não me obrigue a ir-me embora. Sim, perturba-me com essa conversa. Sim, ainda tenho erecções. Meu Deus! Eu não disse isto! Eu não lhe disse isto… desculpe-me, estou fora de mim. Não. Não, fora de mim, não! Então, professor, está dentro de si? Em que ficamos? Que mal há em eu o perturbar? Que mal há em eu o excitar? Solte-se… seja humilde… ouça o som do corpo…. Posso tocá-lo? Tocar-me? Aonde? Claro que não pode! Bom, pode tocar-me, mas acha necessário? Será conveniente? Merda, professor! Cague nas conveniências. Deixe-me afagar-lhe as mãos. Está a tremer, professor. Deixe-me acariciar-lhe o rosto. Está a suar, professor. Porque treme e sua nesta noite cálida? Que revolta se dá no seu corpo? Que líquidos lhe liberto? Matilde, porque a reprovei? Porque a reprovei? Professor, sofre de psitacismo? Porque de priapismo nem vale a pena perguntar. Esse volume aí à frente carece de intervenção urgente. Quer que eu intervenha, professor? Matilde, suplico-lhe, está gozar comigo. Sim, estou com uma brutal erecção. Já não tinha uma assim há anos. Excitou-me o seu acto elocutório, a sua eloquência, a sua… Professor, estávamos a falar de tesão. Teeeesão, professor! Isso que se vê entre as suas pernas, nas calças a arrebentar. Assuma, professor. Olhe que não dói! Não dói o quê? Eu já fiz amor várias vezes, ouviu?! Claro, professor. Já fez amor. Que bonito. Eu, a maior parte das vezes, fodo. Estou-me a guardar, professor. Para o príncipe que há-de vir, depois de cavalgar três dias e três noites. Que chegará ao lugar, que sou eu, e que partirá de novo, porque aqui não é aqui. Percebe-me? Claro que percebo! Não, não sei o que quer dizer! Fala-me de tes…, erecção, digo, e depois volta a citar Bloom. Eu vou explicar-lhe o que Bloom queria dizer… Nem pense! Isso é uma estratégia parva para não se vir. Tive um colega que pensava em caveiras e fantasmas. O prof debate-se com Bloom. Resulta? Claro que resulta! Não, não queria dizer isto. Quero dizer que a minha erecção decorre desta sedução. Está a seduzir-me, a induzir-me a cometer actos alheios a meu querer por palavras e gestos enganosos. Olhe que a lei pune a sedução e os sedutores. As sedutoras, queria dizer… Ó professor, esses titúbios todos do dizer e quer dizer que diz mas não diz, lembra-se, é função fática da linguagem. Até nos deu aquele exemplo: “Eh! Quer dizer, portanto…euh, nunca mais chove, não é verdade?” Matilde, como é que eu a chumbei se estava sempre atenta e apreendeu tudo o que eu disse? Não consigo compreender, não encontro plausível explicação. Além disso, esclareça-me: nós nunca falámos, pois não? Falso, professor, falso! Então não falámos? Logo na segunda aula do ano passado, ganhei coragem para lhe colocar uma questão que eu considerava fundamental para clarificar uma dúvida e o professor achou-a tão ridícula, tão impertinente, tão descabida que me humilhou perante a turma toda. Gozou-me. Troçou de mim. Tão senhor de si, Monsieur-je-sais-tout…. Lembra-se de eu ter rebentado em lágrimas perante uma turma em solidário silêncio? Não lembra, decerto Sabe porquê? Porque se estava a vir em palavras de gozo, numa ejaculatória para cima de mim. Cuspidas com desdém soberano sobre a pupila, a discente, aquela que recebe, bovinamente aquiescente… Matilde, lembro-me perfeitamente. Deixe-me situar. Dê-me um instante. A Matilde é aluna de nariz empinado e malares de jeito eslavo. Claro! Numa aula proferiu duas ou três parvoíces impertinentes e completamente descontextualizadas. Estava a fazer-se notada. A querer protagonismo. Na análise de textos teceu uma consideração tão banalmente inoportuna que não consegui conter-me sem a cilindrar. Perdão, não queria dizer cilindrar. Que horror! Sem a corrigir… Pois foi, professor. Foi um horror. E cilindrou-me. Cilindrou-me para o resto do ano. E tão bem me cilindrou, que bloqueei. E reprovei. E sou de novo sua aluna. Daquelas da última fila. Nada de grave… Mas, Matilde, não tive essa intenção… “Mas” é uma conjunção adversativa, professor. Adversativa, não se esqueça, como adverso, adversário, em contraste, em oposição. Pois foi esse o ritual que cumprimos. O professor opôs-se a mim. Foi meu adversário. Mas, Matilde, isso é um absurdo! Com que fim? Com que fito? Elementar, meu caro. Elementar. Para crescer, se projectar, ejacular o seu potente saber. Como os cães, mijar para marcar território. Foi isso que fez, professor: mijou! Ou prefere mictou? Bom, creio que há aqui um grande qui pro quo, um plurívoco. Eu não ajo assim. Não me comporto desse modo. Foi um acidente fortuito e pior que fortuito, levianamente interpretado. Oui, oui, mon chéri! Chame-lhe aquilo que aplacar o seu ego ora inchado, agora contrito. O meu querido age precisamente assim. Como um cronómetro suíço. Certinho. Previsivelmente cadente e certo. São tiques tão epidérmicos que já não os nota. Para mais, os senhores professores, os do seu tempo, são uns nabos em pedagogia e em didáctica, não são? Esses são sub temas tão despiciendos que nunca passavam das lodosas margens de Parnaso. Erudição, professor. Conhecimento científico, professor. Saber, professor. Mas saber sem sabor, professor? Não importa. Agora não importa. E além disso, quem sou eu para lhe dar lições, para lhe ensinar o que quer que seja? Sim, Matilde. Quem é você? Com que direito me constrange com equívocos tão ausentes. Eu sou seu professor, o docente, aquele que dá. Você é minha aluna, a discente, aquela que recebe, o receptáculo do meu saber. Certo? Desculpe, tem razão. Cheira bem, professor é Bulgari? Sim, é Bulgari. A Matilde também cheira muitíssimo bem. Não identifico. É frutado. Limão? Não, professor. Juventude ao natural. Cheiros de dentro. Impolutos. Novos para si. Matilde, posso tocar-lhe? Claro, professor. Toquemo-nos, os dois. Receio perder a cabeça, Matilde… E receia muito bem, porque já se auto decapitou. Oh, o seu coiso está a deixar-me muito molhada… Matilde, está a ser vulgar. Não precisa de valorizar essas coisas. Eu sou mais que vulgar, professor. Sou ordinária. Até sou mais que ordinária, professor. Sou obscena e não estou de acordo com a ordem natural das coisas. Estou invertida, professor? Invertida, Matilde, homossexual? Não, professor, apenas virada às avessas. Não vê? Sim, claro. Que belíssimo cu. Perdão, rabo, rabo, Matilde. O que é rabo-rabo-Matilde, professor? Oh! Oh… Professor, esse oh-oh é sonito? Disparate, Matilde, é prazer. Puro prazer, Matilde. Exaltação… Como as suas aulas, professor? Deixe lá as aulas em paz. Não são para aqui chamadas. Estou a apalpar-lhe o cu, a tocar-lhe o rabo, digo, e fala-me em aulas… Francamente. Que inconveniente! Os seus seios estão túmidos, Matilde. Empinados, professor, despertos, abertos à lição, às suas mãos, à sua boca, à fonte do saber, professor. Ah! Ah! Pois há, professor. Há mais… Beije-me o clítoris, com jeito, sem ansiedade. Essa língua a mexer. Não pare. O indicador direito está a contar as estrelas? Dentro com ele. Isso. Isso. Assim. Suavemente, para dentro e para fora. Para dentro e para fora. Pressione. Rode. Agora lamba os dedos, professor. Isso. A que sabem? Mel, Matilde, celestial mel… Langonha, languinhenta langonha. Continue. Sim. Assim. Agora penetre-me. Com jeito. Assim. Assim… Oh! Oh… que me venho! Que tenho o orgasmo. Professor, não seja impertinente. Desacelere. Aguente-se, que diabo! Seja homem. Pense nas palavras, nos poetas, na angústia da influência, nas múmias egípcias… Chiça! Já está!? Assim não me venho eu, professor! Matilde… Matildezinha… desculpe-me, não consegui evitar, conter-me, reter a minha exuberância, minha exaltação, meu êxtase… Ok, prof. O mal está feito. Vamos a outra? Com jeitinho? Mas, Matilde. Eu não tenho a sua idade. Eu tenho 50 anos. Falta-me o seu vigor. Pois! Isso dá para ver. Está murcho como um cravo seco. Avanti! De pé com a gaita! Já! Matilde, de uma vez por todas, pare com essa linguagem de sargento lateiro. Deixe-me compor. Estamos numa festa pública. Ou já se esqueceu? Que desalinho! Vista-se também. Se alguém a vê com a vagina ao léu…. Ver com a vagina, professor? Belíssimo eufemismo… A minha vagina está a chorar as lágrimas que lá depositou. Suas. De mágoas. Minhas. Por ter ficado a ver navios. Isto é poesia, não é professor Monsieur-je-sais-tout? Não sabe endireitar isso, esse coiso flácido? Matilde, tenho que me retirar. Espero que possua, quero dizer, demonstre a lucidez e o bom senso de não esquecer que sou um pai de família. Que podia ser seu progenitor. Além disso, não esqueça que sou o coordenador do departamento e amanhã, quem sabe, o presidente do conselho directivo, o futuro reitor da Universidade. Sou um pilar, Matilde. Um pilar! Pilar murcho, professor. Pilar torto. Adeus! Até à aula de 3ª feira. Estarei lá. Bem à frente. Olhá-lo-ei entre as pernas e verei peles flácidas e de ranho pendente. E talvez comece a compreender melhor o seu sapiente discurso. Aprendeu alguma coisa, hoje, professor? Com a Matilde?


Fim
paulo neto.