quinta-feira, Fevereiro 19, 2009

A escrita da imagem

Se a imagem vale dez mil palavras, no dizer milenarmente sábio dos chineses, por quê escrever sobre a(s) imagem (ns)?
Para uns, a escrita é o substituto degradado da palavra, simbolizando a perda da presença: a escrita chega quando a palavra se retira e permanece como símbolo da palavra ausente.
Jean Lacroix escrevia sobre a escrita --»
um esforço secundário e perigoso para reapropriar-se simbolicamente da presença.
Os chineses conferiam à escrita um valor tão grande que a caligrafia superou, por exemplo, a pintura.
Para eles, a sua escrita figurativa, essencialmente simbólica, deve ressumbrar todos os elementos da linguagem, sonoros e gráficos, ritmos e sentenças, destacando a eficiência do símbolo, para expressar o pensamento, impondo o sentimento de que exprimir não é evocar, mas sim realizar.
Ademais se sabe que a língua chinesa falada tem variações de intensidade e entoação da mesma frase que pode alterá-la até significar realidades muito diferentes e mesmo completamente antitéticas.
O que é escrito é fixado definitivamente, daí, entre outros, o seu carácter conservador por oposição à dinâmica transformacional da linguagem falada.
Escrever sobre o corpus captado por uma objectiva, sobre a imagem pintada, que valoração ou mais-valia lhes concederá?
E se, em simultâneo, usássemos uma linguagem mais plural, em que a imagem e a escrita se enliçariam numa escultura de significação(ões)?

Estes pontos aqui esquissados ao sabor breve de uma inspiração fortuita poderão ser mais longe levados.
Vamos tentá-lo.
A escrita é redutora se for só denotativa e não se eivar de polissemias.
Se a escrita veicular representação (ões) de valor conotativo, perderá a linearidade sintagmática e ampliar-se-á nas ‘tergiversações’ paradigmáticas.
Hesitação/Decisão essência das transgressões.
No entendimento de fuga à norma.
A escrita, assim obliquada, como que a escorregar travessa da linha direita que a enfileira, é tão valiosa como a imagem, pois passível, como ela, de enfoques e/ou perspectivas várias.
De milhentos ângulos, mesmo.
Mileangular’.
Contudo, a imagem atrai de imediato (ou repele) na sua apresentação espectacular.
A imagem, enquanto representação policromática (mesmo o preto e branco tem gradações várias de tom, os cinzas, p.ex.), tem profundidade, tem planos, tem, à evidência, representações do real (ou do irreal) que a escrita (con)figura, mas de modo menos evidente, sim de forma mais críptica.
Toda a escrita é código, todo o código carece de descodificação para ser perceptibilizado.
Mas e a imagem, não é também código?
Claro que sim.
Claro que não.
É imediatamente observável.
É espectáculo puro, representação primeira (primária?).
A escrita não colhe nessas facilidades a adesão do spectator.
A prática epistolar, tão em desuso (re-novação) nos dias de hoje, conferia à palavra a presença do(s) ausente(s).
E de forma lenta.
Hodiernamente, a escrita re-envia-se à velocidade da palavra dita.
Posso usar qualquer meio do tipo messenger para escrever e ser emissor receptor como se de um acto de oralidade se tratasse.
Em termos cronológicos, claro.
E que concluir dessa alteridade?
Pelo menos, que também a conservadora escrita volveu veloz ao encontro atempado do frenesim da época…pelo menos…
Lacroix conferiu-lhe a perigosidade na apropriação da presença.
Como assim?
Perigoso é o que constitui uma ameaça, que põe em risco a integridade física de uma pessoa ou a existência de uma coisa.
Mas também, que envolve risco, que é susceptível de fracasso ou de insucesso.
Ou ainda, que não merece confiança e é capaz de causar dano ou prejudicar.
Logo, as palavras escritas, para o citado, pela sua fixação, ausência de emissor, testemunho inquestionado, variedade de interpretação, são um ameaçador perigo ou uma perigosa ameaça.
Talvez.
Os chineses, talvez também por isso, pela forma figurativa, pictográfica da sua palavra, culminavam-na de importância.
Mais lhe concedendo imagem expressiva e até emotiva.
E porém, decidiram que uma imagem vale mais do que dez mil palavras.
Ou será que as palavras são tão plurivocamente perigosas que uma imagem, na sua imediata representação, não proporciona tanto risco?
E daí o seu valor (benefício?).
Sabemos ainda, que apesar do valor que era por eles concedido à palavra escrita, esta só atingia a plenitude expressiva através da sua fonética, através da entoação/intensidade…
E parece-me que rolamos como seixos em leito lento de córrego, de oxímaro em paradoxo.
Será?
Pois que seja!
E que seja ainda um botar à terra de sementes para colheita pródiga, em termos de reflexão.
E retornemos ao incipit : A escrita da imagem.
Não será adir a uma imagem um texto (e porque não vice-versa?) reduzi-lo (a)?
Tirar ao spectator / leitor, a sua capacidade de enfrentar sozinho o caminho, e chegar?
Será a adição redutora?
Ou facultativa, para os mais desatentos, para os mais relutantes à descodificação, de uma mão cheia (a do semeador?) de pistas, de sinais (de alerta?), de vias para a riqueza do metatexto?
O horizonte atrás do horizonte?
Este texto (infra texto), é nem mais que uma reflexão, não em voz alta mas de vivo texto.
É uma sucessão de hipo teses.
Daqui se abra a discussão e acedamos a convertê-lo em tese de alguma coisa, nomeadamente, da relação íntima (e inseparável?) da escrita com a imagem, forma talvez hermes-afrodita que alguém, algures, por sensatez (?), sabedoria ou cruel perfídia, dividiu ou des con juntou…

Paulo Neto
Viseu
16 de Outubro de 2006